Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Marie

Saltava de uma para outra barra com a leveza dos esquilos em um vestidinho branco furta-cor, que sob as luzes coloridas adquiria tons fantásticos esverdeados e lilases.
Lá de cima ela via pontos pretos, castanhos em diversas tonalidades, alguns ruivos e alguns louros, muitos brancos, pontos girando, pontilhismo de gente, e barras, sempre focalizando as barras ia descrevendo figuras imaginárias circulares, ovais, espirais.
Bailava no ar sustentada por asas invisíveis, volteava, caía, subia, planava, terminava sempre numa barra inatingível.
No picadeiro, um palhaço escondido sob sombras laterais olhava apaixonadamente as evoluções de Marie, sem perceber. Seu contêiner-casa era ao lado do dela, e era só para lá que tinha olhos, sem perceber. De todas as criaturas dali, era ela a mais preciosa.
Enquanto isso, uma fada de vestido rodado cantava uma ópera-rock em várias línguas misturadas, e mesmo inventadas, cantava com uma intensidade que a todos envolvia e hipnotizava e então foi como se todos na platéia também girassem ali no alto, rodopiando de olhos fechados.
Marie desceu planando, certamente presa por algum cabo invisível, arrancando suspiros e aplausos do público, exceto de algumas pessoas não muito leves que havia ali (sempre há, o que se pode fazer? São os frios moradores da Lua), que não fizeram a menor falta.
O palhaço seguia todos os seus movimentos com olhares emocionados, e também aplaudia. Apresentaram-se mais e mais atrações incríveis, de artistas vindos da China, Itália, Polinésia, do Centro da Terra e também de países mais comuns, e entre elas houve palhaçadas muito boas.
O espetáculo terminava, todos vieram ao palco novamente, menos Marie. Agradecimentos e mais aplausos, o único a perceber a falta correu aflito ao trailer da acrobata. O que poderia ter acontecido? Ela nunca perdia o grand finale!
Encontrou-o vazio e frio. Sem armário, sem baú, sem cama nem mesinha, só uma cadeira. Sobre esta, o vestidinho furta-cor e um bilhete.
Marie voltara para Marte. Mudara-se para a espaçonave de um patrocinador.

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