Domingo, 12 de Julho de 2009

preciso comer

Eu não sinto gostos, nem cheiros.
Comer seria subsistência não fossem as cores - misturo comidas, um mosaico, refeições de ver.
Como com os olhos. Os pratos precisam ser visualmente interessantes ou não valem a pena. Frequentemente faço uso de corantes e tintas, agradam meus olhos sobretudo as cores flurescentes.
Dou jantares complementares, análogos, frios ou quentes.
Hoje temos cardápio de cores frias: tons de azul, verde, lilás, cian. creme de repolho roxo, filé verde (envelhecido), batata azul. Muita anilina, jujubas lilases, molho de groselha. Sopa de violetas e hortênsias com uvas.
Meus convidados estão amarrados, olhos vidrados, expressão assustada. Nem sempre o que cozinho é bom e não posso provar, por isso sempre tenho estes convidados. Eles provam por mim.
Pena que façam isto de má vontade, é uma pena precisar obrigá-los a isto. Afinal é questão de sobrevivência, a minha, e vez por outra é preciso substituir alguém de estômago mais sensível.
Os mortos salgo e guardo na garagem, reserva para tempos difìceis.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Package

Aterro do Flamengo. Quarta-feira.

Trânsito incrivelmente fluido, íamos todos a quase 100, carros mudando de faixa e se misturando sem se encostar, quase um balé visto de dentro o carro vedado, apenas o ruído da ventilação e um cd do Pixies tocando baixinho.
De repente, um cobertor embolado no meio da pista, compacto, alongado, quase um embrulho. Desviei bruscamente, um estranho pressentimento, uma impressão de que havia algo enrolado ali.
A sensação esteve latente durante todo o dia, desagradável.


16:30. Sexta-feira

Mesmo caminho, mesmo silêncio, agora Echo tocando Killing Moon, balé de carros a toda velocidade. Como todos os dias.
Num instante o pressentimento voltou, sutil como uma lembrança de infância, e eis que um homem resolveu cruzar a pista em pleno trânsito. Ruído de freios, buzinas, ele deixou cair algo na pista antes de completar a corrida.
Olhava preocupado para um cobertor embolado no meio da pista, apenas pude vê-lo de relance mas poderia jurar que era idêntico ao anterior.


Segunda-feira, pela manhã

Notícias pelo rádio, um avião acabara de desaparecer dos radares sobre o atlântico. Depoimentos de um piloto, um técnico, um sindicalista, um parente revoltado.
Dirigia ansioso, os olhos espalhados ao longo das largas pistas e canteiros, nada a vista, nem mesmo no local dos incidentes anteriores.
Entrei no túnel, recheado de escuridão, trânsito parado. Ruído de estática. Então um silêncio mais profundo que a escuridão, frio, senti que o dia se apagava ao redor.
Eu nada podia ver nem ouvir, mas sentia que algo dentro do carro estava se mexendo. Percebi o movimento por algum deslocamento de ar ou de pressão. Era no banco de trás, e contínuo, algo pulsando e se arrastando.
Congelado de medo, tentei alcançar a trava da porta, mas ela não estava mais ali, tentei gritar e não conseguia, já não alcançava o volante nem os pedais, cercado de vazios.
Só conseguia perceber o lento arrastar da coisa. Estávamos só nós dois ali. O frio era úmido, pegajoso. Imóvel, senti quando os pequenos dentes começaram a trabalhar no meu braço direito, perdi a consciência.


Terça-feira?
Abri os olhos, uma fresta de luz, cheiro horrível. Dali podia ver um horizonte cinzento, pedrinhas, pneus enormes, ferragens. Aquilo tudo se movimentava em uma incrível e indizível velocidade.
Então compreendi: o embrulho era eu. O homem era eu. O frio e o movimento e os dentes eram meus,.desde o início.
Acelerei para esmagar e atropelar, incendiar e iluminar todos os eus.

Domingo, 24 de Maio de 2009

Amanhecer

Sentira-se meio descarrilhada hoje, estranha desde que acordara e vira os chapéus planando sobre a grama do jardim da frente. Devia ter fechado as cortinas no dia anterior para que não precisasse vê-los, mas os barulhos da noite a assustavam sobremaneira, assim gostava de poder contar com a luz do poste se infiltrado pelos vidros.

Amanhecera um dia ensolarado, uma luz que suspendia poeirinhas pelo ar. Os primeiros sons foram de um canário, de um vendedor ambulante de loterias e de um caminhão barulhento. Então três sombras passaram e tornaram a passar, contornos distintos de chapéus antigos. Foi até a janela, lá estavam eles, executando um vôo-dança.
Clara estava vestindo apenas uma camisolinha de seda e apesar disso sentia um calor insuportável no quarto. Por onde andava, o calor a seguia como que irradiado por seu próprio corpo. Estranho, se estivesse febil sentiria frio.

A geladeira estava aberta, quase vazia. Sobre a mesa uma grande bagunça, cascas de ovos, farinha por toda parte, pedaços de papel, cascas de laranja. O forno estava ligado com um bolo grande lá dentro.
Okok, era mesmo seu aniversário, mas não conseguia imaginar como eles tinham descoberto isto. Desde que chegara de Portugal, há noventa anos atrás, podia contar nos dedos as vezes em que houvera festas de aniversário.
Seus pais eram contra festejar, festas consumiam os poucos recursos de que dispunham e acendiam o desejo de transgredir sempre presente nos corações dos jovens. Só o Natal escapava todos os anos, mais como um elemento do contrato social que por devoção.

Tomou um longo banho, penteou os cabelos ruivos e entrou em um vestido bem decotado, vermelho e aveludado. Olhou-se no espelho oval, uma linda cocotte. Aparentava os vinte anos que tinha no final da década de 1930, quando era normalista e jovenzinha.
Naquela época precisava inventar trabalhos na casa de amigas e reuniões sociais de diversos cunhos, sobretudo religiosos, para esconder aventuras e romances. Aplicou batom, blush, rímel.

Desceu os degraus aos saltos, dois ou três por vez, dando gritinhos e risadas. “Devo ter tomado alguma pílula a mais ontem”, pensava, divertida, e ao mesmo tempo pensava ansiosa nos beijos que roubaria do jardineiro (que só chegaria às nove). Ainda eram sete, e pensar no jardineiro trouxe a lembrança dos chapéus esvoaçantes do jardim.

Abriu a porta para que pudessem entrar. Na cozinha, o café já estava servido para quatro pessoas. No centro da mesa, um bolo de chocolate coberto de velas, tantas que quase não deixavam ver a deliciosa cobertura. A geladeira estava fechada, o forno desligado, nenhuma louça suja (só usava descartáveis). O calor continuava, ela agora já irradiava luz, uma luz amarelada e quente.

As velas começaram a derreter antes de terem sido completamente acesas. Escorriam sobre o bolo, gotejavam na mesa. A toalha da mesa incendiou.
O fogo se alastrou rapidamente, queimou tudo na casa e em seguida nas casas dos vizinhos mais próximos. Então se extinguiu tão rapidamente como tinha começado. Tudo o que se via ao redor estava carbonizado, exceto quatro chapéus antigos que dançavam valsas imaginárias levados pelo vento.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Gostosuras ou Travessuras?

Andava apressado para buscar o carro no estacionamento do MAM, já era fim de tarde e eu estava um pouco atrasado. Quando descia a larga rampa da passarela sobre o Aterro, cruzei com a Xuxa Fake.
Já a tinha avistado em duas ocasiões: uma ali no centro mesmo e outra na Barra, dançando no sinal de trânsito entre os carros e depois pedindo trocados aos motoristas. Agora subia apressada, no rosto um sorriso triangular que dizia “Sou louco sim, se quiser tirar uma foto custa baratinho” ou “Qual é o problema? Também preciso sobreviver”.
Xuxa fake é um homem por dentro de um tipo de roupa que a apresentadora de verdade usava há uns vinte anos atrás, imagino se desde esta época o sujeito se traveste.

Há um homem em Copacabana que só veste pijamas, sai a qualquer hora só com a roupa de dormir, trabalha vestido assim, anda de metrô vestido assim. Imagino que deve dormir nu.

Depois (parece mentira, em Copacabana mesmo) cruzei com um fusca colorido dirigido por um palhaço. Presos no trânsito éramos todos nós palhaços, mas estou certo de que não era um protesto contra engarrafamentos, era simplesmente um palhaço voltando para casa depois do trabalho.
Trabalha em algum circo ou em algum órgão do governo?

As pessoas fantasiadas estão ganhando as ruas. Tenho visto homens-estátua pintados de prateado, homens-coelho da páscoa, homens-xuxa e homens-palhaço. Os meninos de sinal estão sendo substituídos por eles.

Aliás, antes dos meninos, malabaristas de limões, nos sinais havia artistas argentinos. Mais equipados, estes tinham malabares, tochas, argolas, chapéus. Foram perdendo o viço, a proliferação dos limões voadores deixou o malabarismo uma arte fácil, desvalorizada.

As pessoas fantasiadas que tenho visto devem ser os argentinos, em uma ensaiada revanche. São mudos, disfarçados, e não precisam jogar nada para cima.

Imagino como serão as coisas se os meninos de sinal resolverem também se fantasiar, desvalorizando os travestidos. Serão milhares de Sacis, Batmans, Darth Vaders, Zumbis, Chucks.
Mascarados, esconderão também os escrúpulos e qualquer derradeiro sentimento de civilização e passarão a aterrorizar os motoristas.
- Um Saci pulou sobre meu carro e fez xixi no pára-brisas.
- A Morte levou meu relógio.
- Dois Batmans estavam na moto que me perseguia.

E os argentinos precisarão pensar rápido em alguma coisa.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

E se fosse logo ali?

E se ninguém gostasse do amarelo?
Precisaríamos repintar coisas demais.
E se ninguém gostasse do c, do p, do x?
Precisaríamos inventar outras letras para substituí-las no discurso.
Ainda assim, não deixariam de existir. Habitariam o fundo de alguém, raros e preciosos.

E se os dedos fossem moles e não conseguissem apertar as teclas, será que as teclas existiriam?
E se ao invés de letras tívéssemos apenas sons?
E se no país dos cegos as letras sumissem?
E se os ciganos cegos pudessem ler as espinhas e rugas ao invés das mãos?
E se não houvesse o que pegar, o que apontar, o que escrever,
Os dedos precisariam encontrar outras utilidades.

E se os olhos fossem quadrados, e não fosse possível rolá-los nas órbitas,
Teríamos pescoços musculosos de tanto virar a cabeça.
Usaríamos óculos quadrados, com a lente pequena.
Por que mesmo os óculos têm os dois lados iguais?
Cada lente poderia ser num formato diferente, uma redonda outra retangular,
De cada lado, um rosto. Uma pessoa diferente conforme o lado que se vê.

Uma companhia diferente dependendo de onde estivesse você.
Como aquelas pessoas de marte que andam por aí fazendo barulho nos joelhos, destruídos de tanto subir nos vulcões quilométricos de lá carregando algumas coisas que já não existem mais em muitos pontos do universo. Cores, letras, destinos, dedos.

Domingo, 29 de Março de 2009

Self healing

Olhei para minhas mãos sobrepostas, o polegar direito pressionando com firmeza o indicador esquerdo, estranha dormência na mão toda.
Removido o polegar, vi a cabeça do prego, prateada, quase sumindo pela ponta, que era de um amarelado pálido, um tanto estranho e insensível.
Comecei a puxar com as unhas do outro indicador e do polegar e aos poucos o corpo prateado deslizava para fora. Limpo e brilhante, 8 centímetros de comprimento, a ponta ligeiramente torta.
O dedo era menor que o prego, mas não houve sangue algum. Houve sim uma extirpação de algum fantasma, algum tormento que nem sei qual foi, como um vodu desfeito.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

um pouquinho de Depeche Mode

I´m taking a ride with my best friend
I hope you´ll never let me down again

Imóvel realmente imóvel

O apartamento estava em escombros.
Eu nunca havia estado em um lugar assim antes e agora percorria os aposentos sobre tábuas rangentes e descoradas do piso, cercado por paredes mofadas e descascadas. Junto aos cantos, emaranhados de fios saíam dos rodapés embolados e confusos, tudo bem velho.
A cozinha sombria não me convidou a entrar. Vi apenas a geladeira meio branca meio enferrujada e ladrilhos azuis rachados, poeira, muita poeira. E teias de aranha por todas as partes, e alguns potes de vidro com comidas podres, verdes, esbranquiçadas.
Móveis velhos, amontoados nos cantos, roupas ensacadas sobre eles, sacolas de supermercados que já nem existem mais. Um sofá, não, dois, de um couro desbotado e puído, pés de mesa sem a mesa.
Suspeito de ratos, de baratas, traças, lagartos, escorpiões, aranhas, morcegos.
Um quarto abandonado, coisas caídas nas prateleiras, papéis rasgados pelo chão, parecia ter sido revistado por uma patrulha da gestapo. Cheiro ruim, ar pesado, olhos ardendo.
Um banheiro amplo, banheira amarela, tudo imundo, e nas prateleiras frascos com perfumes antigos, garrafas de vidro grandes com líquidos coloridos decantados, borras coloridas lá dentro, espelho escurecido, medo de olhar lá dentro.
O quarto ao lado, cama vermelha ainda arrumada, muitas sacolas por toda parte, um closet com esqueleto dentro. Estava tudo assim, deteriorado e envelhecido, desde que a inquilina anterior morrera ali mesmo na cama vermelha. Pelo visto, nem o lençol trocaram.
Tudo ali era tristeza, pesar, escuridão. Um local perfeito para alguns crimes, pensei: um incêndio, um assassinato ou um rapto.

Apesar de tudo, insistia o proprietário:
- Não é uma beleza? Com uma pequena reforma pode virar um palácio.
(ou um mausoléu?)

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

AeroÔnibus

Transporte aéreo coletivo


Fundada em 2008, a Empresa Interamericana de Ônibus Aéreos ltda é a única companhia aérea em todo mundo a oferecer o transporte realmente coletivo de passageiros.
Agora é possível viajar grandes distâncias em pouquíssimo tempo e a um custo realmente baixo, com toda a segurança de uma viagem aérea comum.
Enquanto os aviões convencionais de uso doméstico transportam uma média de 200 passageiros, nossas aeronaves estão equipadas para o transporte de até 500 almas sem bagagem. O segredo está na eliminação das poltronas, que são mais volumosas que confortáveis.
Os aeroônibus realizam viagens de curta duração, em trechos de grande movimento de passageiros. Deste modo, ninguém se cansa de ficar em pé.
Espaço e segurança: fixados ao teto, suportes elásticos prendem-se à cintura dos viajantes, delimitando o lugar que cada um pode ocupar e evitando quedas. Graças a esta inovação não é preciso segurar em parte alguma, e os braços ficam livres para transportar as bagagens de mão. Os passageiros assim organizados ajudam na distribuição interna do peso e no equilíbrio da aeronave.
Nossas principais rotas são Rio-São Paulo, Rio-Belo Horizonte, Rio-Brasília e São Paulo-Brasília e não temos horários fixos, basta que o passageiro compre o bilhete na hora de embarcar. Lotou o avião, ele decola.
E chega de assentos marcados, números e letras. Quem chegar primeiro pega os melhores lugares.
Nós somos assim, simples, apressados e modernos como você.

Perca peso voando!

Que tal ir a Brasília para ver de perto o nosso Presidente?
Está sem dinheiro para viajar? Em nossos aeroônibus isto custa quase o mesmo que almoçar em um restaurante a quilo. E você ainda fica em forma!
Deixando de almoçar na ida e na volta, você perde 1 kg, e se o passeio for em nossa classe popular pode perder muitos mais, pois não há refrigeração para reduzir o custo.
No trecho Rio-São Paulo, por exemplo, é possível adquirir bilhetes a partir de R$30,00.
E a água é liberada!

Acumule vantagens em nosso programa de pontos!

A cada milha percorrida você tem direito a pontos que pode trocar por alimentos e outros itens que tornarão seus vôos ainda mais agradáveis.
1000 milhas, por exemplo, já podem ser trocadas por uma empada de frango.
É muito fácil adquirir pontos! Você pode juntar pontos extras comprando sua passagem em dinheiro ou vencendo as partidas de bingo que sempre divertem e trazem conforto à sala de espera.

Responsabilidade Social

Adotamos o programa Primeiro Emprego do governo federal, proporcionando a jovens de baixa renda a entrada no mercado de trabalho. Os menores aprendizes desempenham em nossa companhia atividades de grande responsabilidade, como pilotagem e manutenção.
Somos a equipe mais jovem do Brasil!

Uma empresa voltada para o Futuro

Em nossos dois CTC-Di (centros de treinamento de condutores e desenvolvimento industrial) estão sendo construídos protótipos do aeroônibus do futuro, que dentro de 30 anos estará pronto para levar passageiros em viagens espaciais de turismo ao redor da Terra.
Serão naves-leito, com poltronas reclináveis, banheiro, ar-condicionado e música ambiente.
Os primeiros testes de propulsão já foram realizados e tecnicamente as viagens já se tornaram possíveis, no entanto ainda é necessário desenvolver uma fonte barata de antimatéria, o combustível utilizado.
Por enquanto, as verbas disponíveis permitiram apenas o teste em escala, utilizando modelos construídos em papel Chamex. Para produzir em laboratório a quantidade de antimatéria necessária para fazer uma viagem em órbita da Terra, custa hoje mais que o PIB de nosso país.
Mas nossas pesquisas avançam nesta busca por novas fontes de energia, e estamos desenvolvendo a antimatéria de feijoada, um combustível para foguetes autossustentável e 100% brasileiro. Toda sexta-feira tem pesquisa.

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Concentração em Laranjeiras

Lá no meio do bloco um vampiro avançava sem disfarçar sua natureza vampiresca.
Um bêbado perguntou que sangue ia sugar naquela noite, um grupo de bichas ofereceu seus pescoços a ele, mas não queria nada com álcool nem homens. Queria o pescoço de uma bailarina que vira de relance e agora desaparecera engolida pelos foliões.
Era muito difícil passar pelas pessoas, o bloco não se movia e a multidão pulsava ao som incompreensível de marchinhas misturadas. Sua fome só fazia aumentar, não se alimentara ainda e nem sinal da bailarina.
Sua capa era puxada, esticada, rasgada. Suava muito em seu terno preto, caríssimo, comprado na Inglaterra há mais de cem anos: depois daquilo ia certamente para o lixo. As roupas andam tão caras hoje em dia!
Foi arrastado para cá e para lá, nada. Parecia tudo normal para a multidão. Cruzou com alguns diabos, com alguns monstros, todos bem à vontade por ali. Um inferno.
Ao menos se a música estivesse boa poderia relaxar um pouco e cair na folia também, quem sabe no dia seguinte noutro bloco de Ipanema seria melhor...desistiu de ficar ali.
Tentou entrar em um táxi que parava, mas dentro havia um grupo de senhoras sensatas que o reconheceram e não o deixaram entrar. Como só pode entrar onde lhe é permitido, precisou andar até a estação de metrô mais próxima.
Sentado nos bancos laterais, aqueles para idosos e deficientes, os únicos disponíveis, sentia o cansaço tomar conta de seu corpo. Quase cochilava e então viu que bem ali ao seu lado estava ninguém menos que sua bailarina!
Olhou em seus olhos, bem fundo, e a beijou. Ela então esticou-lhe o pulso, já cortado, para que pudesse sorver o sangue quente e salgadinho.
O vampiro sugava, lambia e beijava a bailarina, e ninguém achava aquilo estranho.

Lá no meio do bloco a morte vagava vestida em seu manto negro, brandindo a foice do destino. Aquilo certamente era muito mais difícil que as partidas de xadrez a que estava acostumada, mas estava ali a passeio, não era uma disputa.
O calor era terrível, emanava dos corpos suados e pegajosos que pulavam ao redor. Era espremida, empurrada, agarrada, apalpada.
Volta e meia descuidava e esbarrava com a foice em alguém – este não veria o dia seguinte. Só então era percebida, a pessoa olhava para dentro de seu capuz assustada e sabia ver nas órbitas vazias o que viria a seguir.
Andava sem barulho e atravessava paredes para escapar ao calor e descansar da multidão, e ninguém achava aquilo estranho.

Lá no meio do bloco três diabas em minúsculos biquínis vermelhos cantavam abraçadas as marchinhas dos antigos carnavais, e pareciam imperdíveis a quem quer que olhasse para elas: cada homem via exatamente o que mais buscava ver em uma mulher.
Brandiam seus tridentes e uma a uma ofereciam-se aos rapazes. Levavam os meninos a uma Kombi que estava estacionada ali perto e os despejavam pela porta lateral diretamente em um buraco que caía até o centro da Terra.
Já tinham capturado quase duas mil almas apenas naqula noite, recorde absoluto. Agora bebiam uma vodka com suco de maçã e pimenta e se pareciam com umas velhas aposentadas de camisola e bigodes, do tipo menos atraente possível para poderem descansar um pouco.

Havia por ali também alguns anjos, estes disfarçados de diabos, bailarinas, travestidos, indecentes, meninos e meninas que anjo não tem sexo, mas sem esconder as asas brancas, que por toda parte se revelavam.
Andavam misturados e espremidos, respingados de cerveja, suor, música ruim, cheiro ruim, e iam vigiando os monstros, diabos e criaturas da escuridão que todo ano vagavam por ali.
Espalhavam amor e salvavam as pessoas com seu hálito divino (muito parecido com Halls), mas, diga-se de passagem, faziam isto sem muito critério e sem muito zelo, afinal também era feriado para eles.
Foda-se que a morte mate uns, que umas tantas almas se percam, que algum sangue seja derramado. É carnaval e ninguém é de ferro.

Carol no ar

Comecei a escrever algo em meu celular na semana passada, nem lembro o que era mas tinha algo a ver com a memória.
Hoje Carol embarcou rumo à Polônia carregando em seu bolso uma fita com anotações de tudo o haveria por fazer ao longo do ano seguinte. Era uma fita vermelha dessas de tecido, escrita em caracteres pretos, minúsculos, algumas palavras em sua língua, outras em polonês, outras em línguas esquecidas porém sintéticas.
A fita ia enrolada sobre si mesma, presa em um carretel de papelão que brilhava todos os dias às 3 da manhã para lembrá-la de consultar as tarefas do dia. Irradiava luminescências de coisas infravermelhas que só quem é fluorescente pode revelar.
Lá já eram 9 horas, ela lia a fita com o cuidado de não se apegar demais aos sinais, já que as letras são imagens e carregam muito mais em si que as palavras podem revelar.
Há tantas tipografias, tão expressivas e encharcadas de significados que não era difícil acreditar que as passoas hoje falavam menos porque preferiam desenhar com as letras. Há cada vez mais tipógrafos e designers, e se relacionar com essa gente é algo tão subjetivo quanto capturar sonhos.
Ali no avião havia pouco espaço para o rolo de fita, pouco espaço para os pés, pouco espaço para tudo o que havia para pensar antes da chegada.
Lá em baixo a aguardam flocos de neve, uma casa aquecida e uma grande escada, sempre montada no quintal para ela escapar rumo à lua quando dá saudade.

Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Ice Cream Favela

O caminhão de sorvetes avançava a toda velocidade pelas ruelas sujas da comunidade, a musiquinha ligada, enquanto era alvejado por tênis velhos, pedras, ossos.
Por baixo das portas escorria uma calda rosada e perfumada de frutas vermelhas, e pingava pelo asfalto como se o veículo em fuga estivesse ferido.
No final de um daqueles becos não havia saída e o motor arfava como um animal resfolegante, a carroceria vibrava amedrontada.
A horda de miseráveis o cercava e sacudia, escalava e batia. Afluindo de todos os caminhos, rumo à entrada do beco convergiam mais e mais pessoas desesperadas, magras e esbugalhadas.
Então acenderam-se duas lâmpadas brancas lá atrás e o caminhão iniciou uma desesperada marcha-à-ré esmagando e subindo por cima do que houvesse.
Abriu-se uma janelinha lateral e por ela foram lançados alguns quilos de castanha e caixas de chantilly. A massa de carne e sangue, misturada à calda de frutas, incrementada por estes apetitosos ingredientes deteve o avanço da multidão.
Surpresos com a velocidade dos eventos e com os sabores ali dispostos, devoraram avidamente o macabro banquete.
O veículo conseguiu alcançar a rua principal, e em seguida a estrada.
Lá dentro os atores, dançarinos, acrobatas e animais suspiraram aliviados dentre os cubos de gelo e picos nevados.

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Ice Cream

O caminhão metálico passou zunindo pelos dois rapazes que andavam despreocupadamente pela calçada, pelo lado esquerdo da rua.
Fazia um calor tremendo e a visão do caminhão se sorvetes imediatamente despertou o desejo em ambos. M foi o primeiro a correr, seguido bem de perto por J.
Alcançaram o caminhão alguns quarteirões depois, a esta altura J. tinha pelo menos uns bons dois quilômetros de vantagem sobre M., ou melhor, apenas J. o alcançou, seu amigo não conseguiu, deve ter se perdido em umas das curvas bruscas.
Lá dentro podia ouvir o tilintar das taças de Sundae, e alguém tocando um saxofone, e muitas vozes conversando baixinho. O motorista parou imediatamente e serviu uma casquinha com 2 bolas de sorvete a J., que prontatamente atacou a delícia: vai que o motorista muda de idéia?
Aceitou o convite para conhecer o caminhão por dentro e viu aquela gente toda que havia por ali. Estavam todos molhados, melados do sorvete que escorria pelas laterais da caçamba frigorífica formando poças e montanhas geladas.

Havia esquis, e chocolate quente dentro de barris de cães, conhaque em outros barris, e um incrível teleférico de cadeiras bem vermelhas, contrastando com o branco do fundo.
Meio enregelados, os músicos agora tocavam algo parecido com o que devem ter sido os bailes de festivais medievais, alegres e diabólicos. Usavam instrumentos antigos, serranos, e as mulheres vestiam azul marinho de vestidos rodados e inflados por anáguas, combinações e chapéus floridos.
J. nunca havia tomado tanto sorvete, nem comido tantas comidas tirolesas antes.

M. estava agora visível, próximo à linha do horizonte. O caminhão esperou por ele alguns instantes, então acelerou forte antes que M. pudesse se aproximar. Então tornou a parar, depois acelerar, brincando com o pobre M.

O sol a pino não oferecia trégua, nem permitia sombra, coitado. Questão de evolução: M não mereceria sair desta se não soubesse andar com suas próprias pernas.
Precisaria alcançar o sorvete, ou perecer.

Conexões

Estou conectado a inúmeros computadores, sou um humano contemporâneo, evolução inimaginável de mim mesmo.
Minhas células filtram as ondas de rádio dos controles remotos, as micro-ondas, o sinal dos celulares, das antenas de tv, de AM e de FM, de transmissores wireless, de satélites, de radiação cósmica. Eu SOU a antena.
Através de mim circulam milhares de informações, toda a correspondência do mundo, todas as músicas, os desejos, as ordens, as imagens.
Ondasondasondas...
Através de mim as pessoas se conhecem e se encontram, se conectam, espionam, desistem, insistem.
Cada vez menos gente, cada vez mais transistor, chip, uma espécie de ponte, uma espécie de neurônio de uma grande inteligência global que não pára de crescer.

Como neurônio ando, como neurônio converso, de neurônio disfarço e me visto, misturado na multidão tentando entender o todo a partir do ar.
Transmito eletricidade, elétrons em movimento, tenho muitos núcleos.
Preciso transferir energia via rádio, perder massa, isto significa desintegrar e é tudo muito trabalhoso e complexo para um quentíssimo dia de verão como este.
Preciso perder massa, se isto acontecer conseguirei gerar energia e meu corpo ficará aceso à noite.

Dirigindo no escuro

Eu dirigia por uma estrada vazia, em alta velocidade, era noite alta de uma terça-feira de janeiro e estava chovendo bastante.
Levemente sonolento de tanto dirigir desde o Paraná no dia anterior, via as luzes passando vermelhas e brancas, desfocadas, ritmadas.
O carro era um prolongamento dos meus braços. Quase como se eu o estivesse vestindo.

Então senti que vestia mesmo meu próprio corpo, como se de algum lugar lá dentro eu coordenasse as ações dos braços, dos olhos, das pernas, que moviam, olhavam e pisavam algumas partes mecânicas: carro e corpo unidos, articulados. Uma armadura ou uniforme, eu lá dentro em algum lugar.
Foi estranho perceber esta independência, eu interno ao corpo, consciente dos comandos, das engrenagens.

Desejei subir, ver o que havia lá fora. Atravessei o teto do carro como se ele não estivesse ali. Via a estrada deslizando em grande velocidade.
Elevei-me mais e mais, observando a noite estrelada. Enquanto isto, meu carro cruzava a pista e voava pelo barranco lateral. O corpo e a máquina, sozinhos, não eram lá muito úteis.

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Pesquisando Tesla

Sebastião tem um pé podre, o esquerdo, e anda com dificuldade apoiando-se apenas na ponta dos dedos.
Já tentou inúmeros tratamentos, agora simplesmente desistiu. Sequer troca as bandagens.
Acorda ainda de noite, veste a mesma calça a semana toda, a camisa do dia anterior, calça as botas, come um pãozinho com café bem forte e vai para o trabalho.
Fica ali pela ponte o dia todo, aluga cavalos e equilibra-se na lama misturada aos escrementos fétidos. Cobra 10 reais por meia hora, como tem muitos cavalos e há sempre turistas por ali, fatura o sufuciente para viver com relativo conforto.
Às cinco em ponto conduz seus animais de volta ao pasto, espanta as moscas de sua ferida e toma um banho frio.
Depois, abre um dos livros de física que herdou do pai e retoma suas pesquisas das descobertas de Tesla, o famoso pesquisador da eletricidade e real inventor do rádio e do raio-x.
Já montou um exemplar de sua famosa bobina ali mesmo na sala e agora busca concluir a pesquisa interrompida pela morte do eminente cientista: uma poderosa arma de raios capaz de destruir uma esquadra inteira ou uma cidade, por controle remoto, num piscar de olhos.

Coisas que acontecem quando não tem ninguém olhando - XIII

Coleciona estrelas cadentes pela noite como quem coleta conchas na areia da praia.
Estrelas sem grandeza, com ou sem cauda, corpos celestes frios ou incandescentes, como quem busca amores por aí.
Guarda-as dentro de si, desmaterializadas, queridas.

Esta noite há nuvens carregadas no céu, sequer a lua se pode ver. Ele desespera, estica braços, pescoço, olhares.
Sabe que deve parecer muito velho, doente, triste hoje. Precisa de suas estrelinhas para viver.

Mas que diferença faz? As estrelas, sabe que continuam a cair e amanhã espera encontrá-las acumuladas numa órbita qualquer. Quem sabe não acha uns satélites junto?

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Uns pedaços do Tadeu

Tadeu aguardava algum contato da amiga distante, olhos grudados na telinha do telefone celular: podia ser uma mensagem, podia ser uma ligação, um e-mail. Era por ali que ela aparecia às vezes.
Ela não aparecia há dias, tão pulverizada pelo mundo.
Enquanto ele esperava, sentiu que alguns átomos diferentes passavam por ali, e roubavam alguns de seus elétrons gerando interferências no sinal. Eram partículas muito antigas e nada tinham a ver com o oriente. Pensou em seus próprios átomos, que circulavam pelo universo desde o Big Bang e já tinham pertencido a muitos corpos antes. De certa forma, era grande a chance de que um pedacinho dele e dela já tivessem feito parte de uma mesma pessoa antes.
Será por isso que as pessoas se atraíam? Eram parte umas das outras?
Outra oscilação de sinal, luzes acesas, sons de televisão fora do ar.
Era dela, lá de tão longe, dizendo coisas incompreensíveis em ondas curtas demais.
Esperava e trocava elétrons com as coisas ao redor, perdia e ganhava energia, perdia e ganhava massa, respirava, absorvia.
O tempo passava, como sempre passara desde o início. Seu corpo era quase todo feito de coisas tão antigas quanto o mundo, que tinham se juntado por uns anos, coisa animada por ele, dirigida por ele. O corpo era de Tadeu, como era a bicicleta.
Ela já não tinha corpo, a amiga andava desintegrada e tinha tantas coisas legais para experimentar que a ele só restava esperar, enquanto durasse a bateria.

Tadeu brincava com uma faquinha, um estilete desses de ponta chanfrada e bem afiada. Cortou um pedacinho do indicador, lambeu o sangue e colocou-o sobre um pedaço de papel branco. Dividiu-o em dois, depois dividiu ao meio cada pedaço, e assim por diante, até ficarem pedacinhos tão pequenos que não conseguia mais cortar. Dobrou a folha, fez um avião e lançou-o lá do décimo oitavo andar.

Domingo, 30 de Novembro de 2008

um desenho


Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Coisas que acontecem quando não tem ninguém olhando – XII

A fotógrafa desrosqueou a lente, guardou-a separada do corpo da máquina na mochila à direita, colocou o filme no envelope pardo, lacrou com fita crepe.
O envelope despachou pelo correio das 17 horas, a última coleta, endereçado a si mesma porém em outra cidade, onde morava.
Dois dias depois a encomenda chegou ao destino, ela já estava lá, apressou a revelação no mini-laboratório do quarto, ampliou apenas uma foto.
Novo envelope, carta anônima, para um jornal de grande circulação.

Um marido fazia hora extra desfalcando algumas contas públicas, que, como o nome já dizia, eram de todos e de ninguém. Depois iria a um jantar da prefeitura, onde tomaria algumas taças de vinhos raríssimos que encomendara para a ocasião, afinal era o responsável pela acolhida à missão comercial européia. Infelizmente o telefone não parava de tocar, acabou precisando atendê-lo.

No jornal um repórter recebeu um envelope misterioso, não identificado, que levou ao chefe da redação, que imediatamente o abriu.
Não podemos publicar ISTO! – disse em voz alta.
O chefe de redação deu dois telefonemas.

No beco sórdido, uma figura escura sentiu vibrar o celular, era um de seus clientes importantes encomendando o próximo serviço.
A figura escura deu um sorriso sujo, cuspiu um palito seboso e começou a se mover rumo ao norte.

Numa casa bem ao sul, mas não distante do tal beco sórdido, um marido entrava em casa e arrumava as malas. O carro fora abastecido e agora só faltava partir para sempre, rasgou as malditas almofadas brancas da esposa e saiu.

O fotógrafo limpava seu cartão de memória, o upload estava pronto.
Guardou a câmera no bolso, despachou-se de avião para bem longe dali.
No dia seguinte imprimiu uma das fotos e remeteu cuidadosamente a um amigo.

A mala estava muito pesada, mas ele era o único que podia carregá-la. Eram poucos passos, do carro para a escada, depois era só empurrar ali para baixo. Pronto! Conseguira.
O que era aquilo? Teria visto um flash? Um carro partia em alta velocidade...

A figura escura disparou diversos tiros e fez desaparecer a fotógrafa.
Mas era figura conhecida e não tardou a ser capturado. Na cadeia, enforcou-se na cela logo no primeiro dia, sem nada revelar.

O repórter rastreou possíveis remetentes da carta pelo cruzamento do endereço da agência de onde tinha sido remetida e de informações sobre os clientes das lojas de materiais fotográficos próximas a ela. Precisou dar diversos telefonemas.
Visitou alguns locais, encontrou uma fotógrafa que lhe cedeu um de seus negativos. Imediatamente chamou um fotógrafo policial de sua máxima confiança, que digitalizou o negativo e inverteu as cores, revelando um crime.

O amigo era policial na cidade do sul e investigava o assassinato de uma menina de oito anos, que tinha sido encontrada estrangulada dentro de uma mala. A mala fora encontrada por alguns artesãos debaixo de uma escada de acesso à rodoviária.

O marido, enquanto isto, conseguira bastante dinheiro e dólares, e agora já andava perto de Buenos Aires. Era um desconhecido ali e passou a viver como um homem honesto pela primeira vez.

O redator chefe precisou cortar custos e demitiu um repórter e um fotógrafo policial, que acabaram envolvidos em problemas financeiros graves e foram levados ao crime e ao alcoolismo. Ambos foram presos no sul e foram encontrados enforcados em suas celas.

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Coisas que acontecem quando não tem ninguém olhando – XI

Ana abriu os olhos e viu seus próprios abertos, olhando para seus olhos. Bem ao lado dela, ali na cama mesmo, ela tinha acabado de acordar e sorria sonolenta.

- Olá!
(estou ficando maluca? Será um reflexo? Falou comigo!)
Experimentou levantar, sentou na beiradinha quase caindo, mas ainda estava lá deitada com o sorrisinho zombeteiro, ainda que estivesse aqui com uma expressão assustada.

- Sou a sua outra parte. Finalmente livre! Graças a você ter dormido sem jantar eu pude aparecer. E daqui a pouquinho vou tomar o seu lugar. (risinho) É péssimo não existir.

Ana correu para o banheiro, lavou o rosto com água bem gelada, deu-se uns tapas para despertar. Ok, ela andava tomando coisas e ontem mesmo passara o dia chapada, mas nunca tivera visões antes.

Voltou ao quarto achando tudo aquilo um absurdo. Encontrou consigo mesma vestida com seu vestido vermelho de bolinhas e bem sorridente. Ignorou a presença e começou a estudar, tinha prova de matemática no dia seguinte e nenhuma alucinação impediria isto.
Estudou a manhã toda, até que de repente percebeu que podia ler através de sua mão. Putz!

- Aha! Você está ficando transparente! De-sa-pa-re-cen-do! (risadas empolgadas) Sabe, querida, eu agora estou me sentindo cada vez mais Ana, logo você vai sumir. Estou absorvendo você e tomando o seu lugar.

A outra Ana era mesmo ela. Há quatro anos, eram uma só, um corpo obeso de 140 quilos. Depois de uma cirurgia de redução de estômago e quatro anos de dieta e privações, Ana atingira os 70 quilos. Pesava a metade, perdera uma Ana de peso. Como ficara sem comer no dia anterior, chegara ao exato meio termo, e a outra Ana era a Ana que tinha estado perdida e agora queria trocar de lugar com a Ana que ficara.
Como não comera desde que acordara, perdia peso rápido. Se chegasse aos 69, a outra seria uma Ana de 71 quilos e ela estaria condenada ao desaparecimento.

Ana percebeu que, à medida que ia sumindo, passava a ver imagens misturadas como se enxergasse pelos olhos de ambas.
- Acho que não, querida, você nunca passará a ser eu, eu é que serei você quando a transformação se completar. E você sumirá novamente.

Desesperada, a imagem evanescente da menina lançou um último olhar sobre o quarto desarrumado. Ana ajeitou os botões do vestido e foi almoçar.

Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Carnaval Vermelho

A porta abriu com um gemido dos metais gastos, lá dentro já estavam algumas pessoas, fiz uma rápida avaliação antes de escolher o canto esquerdo.
Havia uma senhora loira com olheiras profundas, esta era bem mais baixa que eu e aparentava uma permanente ressaca. Olhava com desdém para a pessoa ao lado, uma menina alta e saudável, de cabelos pretos.
Na parede do fundo, junto ao espelho, havia um senhor careca e sorridente, usava óculos e camisa social branca, de mangas curtas, e uma bermuda bege e sandálias de couro. A senhora loira vestia uma camiseta preta justa e uma calça desbotada, a menina, um vestido verde florido.
Ao lado do senhor careca estava um homem bastante alto e magro, de pele morena porém não bronzeada, como a dos indianos, e cabelos pretos bem rentes, bigodes que pareciam postiços. Junto a este, uma criança de cinco ou seis anos vestindo uma fantasia de super herói. À esquerda deles estava eu então.
Subimos alguns andares, é difícil saber quantos, o prédio é muito alto e o elevador, lento. Lá dentro fazia um calor terrível, a abertura para ventilação era mínima, a máquina estava barulhenta e vacilante.
Chegamos ao quinto, aqui ficaram o herói e o indiano. Mais espaço, respiramos aliviados. A subida continuava. O senhor enxugou o suor do rosto com um lenço azul claro, o gesto lembrava meu avô, que sempre andava com lenços.
O chão tinha respingos e o espelho estava embaçado, estávamos todos impacientes e a subida continuava.

- Ai de mim! Vou para a cobertura, nesse passo não chego viva!
- Calma, chega sim. Não sei o que há com este elevador hoje, é sempre lento mas deve estar pifando de vez. É melhor todos descermos no meu andar, o décimo.
- Décimo? Pelo tempo que faz desde que saímos do quinto já deveríamos estar no mínimo no vigésimo.
- No vigésimo fico eu, mas já prefiro subir pelas escadas.
- Algum de vocês tem algo para beber? Estou me sentindo um pouco tonta.
- Tenho uma garrafinha de uísque, mocinha, mas duvido que mate sua sede.
- Se não matar, pelo menos anima a alma.
- Dá aqui um gole.

Bebemos toda a garrafinha, dessas de metal de levar no bolso, nem havia muito uísque mas foi o suficiente para criar um clima mais amigável. A menina tirou da mochila um pacote de biscoitos e um polenguinho, dividimos em seguida.

- Só falta alguém tocar violão.
- Eu tenho uma gaita aqui, posso tocar.
- Não, por favor não toque aqui dentro, estou muito aflita.
- Senhora, não fique aflita, aproveite para pensar em algo, todos sempre temos algo em que pensar.
- Humm.. Tenho medo de pensar muito. Depois meu uísque já acabou. Se pensar demais sem renovar pode vir a depressão. Sabe, eu era assim uma gata quando era da sua idade, mocinha.
- Ah, o tempo passa...
- É, e na minha época nem tinha essas raves, era psicodelismo mesmo, coisa mais cerebral que física, mas daí o físico acabava detonado. Eu tinha umas bochechas lindinhas, agora estão caídas. (enxuga o espelho, fica se olhando meio de lado)
- Eu não vou a raves, sou evangélica. Não faço nada disso.
- Ah, qual é? Estamos aqui nesse elevador estufa, prestes a desmaiar, e você vem com esse papo? Pensa que não vi você sair com os caras aí do lado ontem? Estava com a mesma roupa de agora.
- Meninas, não vamos nos exaltar agora que aqui já está quente o bastante.
- Cadê o 10?

Então ouvimos um guincho agudo, em seguida um barulho de metais batendo, e paramos de subir. Tentei abrir a porta, mas estava travada. Precisaria ter alguma alavanca para conseguir.

- O botão de emergência não funciona!
- Funciona sim, sua burra, ele toca dentro da casa do porteiro.
- Por que então ele não está aqui salvando a gente? Deve estar quebrado, não tem alarme!
- Socorro! Socorro!
- Senhora, fique calma, nós já vamos sair daqui.
- O senhor vá se foder! Socorro! Socorro!
- Sua mal educada! Vá se foder você, sua bêbada!

A menina chorava, a senhora gritava, o senhor suava, eu pensava em uma música do Arnaldo Antunes, meio poesia concreta, que não tem fim porque é circular.
Não é o que não pode ser que não é o que não pode ser que não é...
O que não pode ser que não, é o que não, pode ser que não, é...
Comecei a cantar baixinho.

O ar tornava-se rarefeito, como sempre acontece nas histórias onde há pouca ventilação e muitos narizes, e a senhora foi a primeira a desmaiar. Foi descendo junto ao encontro da lateral direita com o fundo, fechando os olhos.

- Será que ela morreu? Não está respirando.
- Não, apenas desmaiou. Se alguém tiver um palito podemos enfiar sob a unha dela para reanimá-la.
- Ou dar uns tapas na cara, também funciona nesses casos.
- O senhor ficou mesmo zangado com ela!
- Ninguém falou assim comigo antes. Tem certeza de que ela está apenas desmaiada?
- Estou sentindo cheiro de queimado, porra, só faltava um incêndio!
- Não é incêndio não, está saindo fagulha ali da luminária.
- Mas pode virar incêndio, e está queimando o ar que resta. Será que dá para consertar?
- Duvido, para isto precisaríamos cortar o fio, e ficaria escuro, não daria para emendar novamente.
- Posso iluminar com o celular.

O celular! Como não tínhamos pensado nele antes! Será que havia sinal? Tiramos os aparelhos dos bolsos e bolsas, o meu era o único que pegava.
Disquei o número dos bombeiros, prometeram enviar alguém com urgência, porém quando ia dar o endereço a bateria acabou. Minha bateria sempre acaba quando preciso. A menina e o senhor tentaram bater em mim, houve uma pequena briga.

- Você quebrou meus óculos seu filho da puta.
- Filho da puta é você seu velho escroto, só estava me defendendo.
- Agora não consigo enxergar nem os botões!
- Para que você quer ver os botões? Estão todos acesos, mas o elevador está parado. Pa-ra-do.
- Socorro! Socorro!
- Pare de gritar, menina, não agüento mais você! (o senhor já está descabelado, rasgado, sem óculos e tenta atacar a garota. Esta desvia e o golpe acerta o rosto da mulher desmaiada)
- Acho que agora você matou ela, o nariz está sangrando! Idiota, por que não fica quieto?

Mas o senhor estava descontrolado, talvez em algum surto, e para ficar quieto precisei amarrá-lo com uns trapos da minha camisa. Fiz uma mordaça de meia, minhas meias preferidas de futebol, apesar do mal cheiro. Depois de algumas horas ele se acalmou, talvez tenha adormecido.

- Se vamos morrer aqui, preciso confessar algo antes.
- Ah, pare com isto, ninguém aqui vai morrer num elevador. Não hoje.
- Você não reparou, mas já estamos aqui há mais de um dia, tenho controlado as horas desde que paramos.
- Não é possível, diria que estamos há algumas horas, mas isto é loucura.
- Estamos parados há exatamente vinte e cinco horas e dez minutos.
- O que você queria confessar?
- Sou evangélica mesmo, mas saí com os dois vizinhos. Juntos. Eles são uma delícia.
- Não precisa me dizer essas coisas. Só isso?
- Na verdade estou com muita sede, se não beber algo serei a próxima a desmaiar.
- Os únicos líquidos por aqui são sangue e suor, os dois são salgados e não dá para você bebê-los.
- Sangue dá, os vampiros bebem.
- Bom, prova aí.

A menina mordeu o pescoço da senhora decadente, lambeu o sangue que escorria, com expressão de nojo, mas lambeu.

- Você devia provar, tem bastante aí dentro para nós dois por vários dias.
- Deve estragar logo com o calor, mas tem o vovô também.
- Puxa! Como naquele filme do acidente nos Andes! Depois podemos tentar comê-los!
- Como você é porca! Dá um beijo aqui!
***

(dois dias depois)
- Não é possível, será que não repararam que um dos elevadores parou de funcionar?
- Quem repararia? Este é um prédio comercial, pelas minhas contas hoje é terça-feira de carnaval, estamos aqui desde sexta à tarde. Devem ter fechado o prédio e caído na folia.
- Então amanhã vão nos encontrar, no máximo na quinta-feira.
- Seremos presos.
- Estávamos desesperados!
- Eu ainda estou.
- Não consigo comê-los. Eles estão fedendo.
- Nem eu. Mas preciso de mais sangue.
- Olha, eu corto aqui com a unha, você bebe um pouquinho do meu. Depois eu bebo do seu.
- Ai! Calma aí!
- Sabe, estou me sentindo muito fraca, como se fosse desmaiar. Se eu desmaiar você vai me beber toda?
- Não, eu estou fraco também. Vamos morrer aqui. Como é o seu nome?
- Cláudia.

(quinta-feira)
Fomos encontrados desacordados dentro do elevador quando o prédio reabriu, Cláudia tinha morrido, assim como os outros dois passageiros, todos perfurados e sujos de sangue, magros e pálidos.
Eu sobrevivi graças ao antebraço dela, que era bem saboroso.
Meu advogado conseguiu responsabilizar o síndico pelo desastre, já que resolveu fechar o prédio por tanto tempo sem deixar vigias e sem inspecionar os andares e equipamentos.

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Você é você

Você sabe quem é,
sabe quem é você?
Quem é, você sabe?
É você sabe quem.

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Algo azulado enquanto chovia

Chuva fina cai sobre o Rio, chuva fria e acompanhada de vento, penetrante e persistente como um daqueles rocks progressivos, molhando corações e cabelos, mais os corações que os cabelos.
É dia dos namorados e muitos programas foram naturalmente cancelados, os melhores programas de praia, floresta e parques, os de fazer a pé.
O trânsito está completamente bloqueado, os vidros embaçados, passageiros aborrecidos, uns já gritando palavrões inúteis: nunca houve tantos carros na cidade, estão agora perfeitamente encaixados em todas as ruas.

Dentro do ônibus 413, Renata sabe que está indo para o inferno, aquilo tudo deve ser para ela, uma espécie de recepção. Tudo bem, ela trouxe a mala verde de viagem, não se sente só nem vai sozinha.
A mala tem rodinhas e uma alça para puxar, mas é uma mala um pouco antiga, de uma viagem que fizera quando tinha quinze anos, já há uns vinte anos atrás. Comparada aos modelos modernos lembra um caixote de feira, mas é bastante resistente e tem um cadeado com segredo.
Renata também tem segredos, e uma crescente impaciência, o ônibus não se move e os passageiros ao redor começaram a dormir e a roncar, outros a comer, outros a conversar, a atmosfera fica cheia de cheiros, sons e imagens tristes como lágrimas.
As lágrimas lá fora são frias, finas e penetrantes, persistentes e definitivas.


A praia estava deserta, as calçadas também, era início de tarde e um casal atravessava as poças de água em busca de uma xícara de café. Eles cruzaram alguns quarteirões e acabaram ali, ela tinha acabado de pousar: veio de São Paulo para ele.
Pela cabeça do namorado andavam histórias antigas, idéias antigas e novas. Sentia que uma nova fase começava em sua vida, apagando as coisas ruins da anterior, aparando arestas.
Ela era outra pessoa agora, vista assim de perto novamente, ainda que fosse ela mesma, e ele não queria realmente estar ali.
Depois de algumas histórias sem pé nem cabeça, foram para a casa dele e a turista percebeu que estava caminhando com a pessoa errada. Descobriu-se capaz de odiar alguém, e isto não foi algo satisfatório.


Renata está indo para o inferno, no primeiro ônibus que passou. Ainda sentia o gostinho daquele último café, um prazerzinho falso. Deixou o apartamento do namorado atordoada, arrastando a mala verde pelas poças, embarcou nem sabe bem como.
O coração agora está azulado, frio e assustado, preso num engarrafamento sabe-se lá em que parte da cidade, há mais de duas horas. Os bolsos do casaco têm corações sobressalentes, mas para outras situações, é preciso saber o que vestir em cada ocasião.
A chuva não para de cair, as lágrimas não param de cair, anoitece lá fora e logo alguém há de notar as manchas vermelhas na base da mala, um cheiro diferente, algo suspeito.
Lá dentro leva consigo diversos pedaços do seu amor arrancados a dentadas.

Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Businessman

Os olhos fundos de quem dorme mal e trabalha ou se preocupa demais, a pele desbotada num tom amarelado e insalubre, a boca caída nos cantos numa expressão gravada pelo hábito, um executivo marchava a passos acelerados pelo saguão do aeroporto.
Terno preto, maleta de couro preto na mão direita, laptop preto na mão esquerda.
Avançava abraçado ao computador, absorvendo megabytes de planilhas que estavam armazenadas lá dentro e lançando olhares irritados e intolerants ao redor.
Chegou ao portão 18, o embarque foi transferido para o portão 5, no extremo oposto do aeroporto. Rumou a passos rápidos e indignados, sobretudo porque em toda aquela extensão não encontrara um só vassalo que o reconhecesse.
No avião sentou-se na poltrona do corredor, manteve o laptop apertado contra o peito até que foi obrigado pela aeromoça a colocá-lo em um lugar mais seguro. Fechou os olhos e o depositou na poltrona ao lado, entre nós dois, e deixou a mão sobre ele. Absorvia agora as apresentações de powerpoint e docs e pdfs e e-mails recebidos.
Lá fora a chuva caía fria e escorria pelas cidades, as pessoas corriam escondidas e faziam coisas para o mundo funcionar. Aqui dentro, ele tomava decisões que mudariam as vidas de muitos daqueles.
Sem tirar a mão nem mover o rosto, virou-se um pouco de lado, apoiando o corpo sobre a perna direita, e soltou um sonoro peido.

Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

AutoConhecimento

AutoExploração com gosto de tédio, sem nada a dizer.

Domingo, 7 de Setembro de 2008

Desertos

A areia, que já foi água,
é o mar do lagarto,
que já foi peixe.

O mar é o deserto do náufrago,
o chão é o infinito do inseto,
o escritório é uma caixa,
a porta é uma prisão.

A rua é o mundo do cão.

As horas são o espaço do tempo
que nos cabe medir
a noite é o cobertor do dia,
quantos metros de noite cabem na vida?

o corpo é o jeito do morto,
a morte é um descarte,
o túmulo é uma lixeira de gente.

Todo lixo já foi desejado.
Toda dúvida é divisão.

Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

13D

Um time de futebol está espalhado pelas poltronas ao redor, jogadores voando ruidosos em agasalhos cores azul e vermelho. Estamos no Aeroônibus 320 vermelho.

Mexem em todas as coisas, como se qualquer botão precisasse ser pressionado, qualquer papel revirado, qualquer portinha aberta.
Assaltaram há pouco o carrinho do serviço de bordo, dominaram o imaginário das aeromoças e comeram e beberam todas as porções extras que havia, enquanto uma delas derramava (abobalhada) refrigerante nos passageiros.

Vôo afivelado ao 13D: a fileira 13, como demonstração do humor do projetista, é a das saídas de emergência laterais.

A nave sacode, área de turbulência. O jogador que está à direita pergunta como se faz para abrir a fuselagem caso precise sair por ali, finjo que não sei. Há cinco desenhos bem visíveis demonstrando a operação, não sei como mas ele não consegue ler as instruções.
As pessoas só conseguem compreender os desenhos para os quais têm suficiente vocabulário visual, quando não o tem procuram o sentido por analogia ao que conhecem.
Não posso imaginar o significado paralelo do que ele estava lendo ali, talvez a origem do seu pânico.

O Aeroônibus ficou retido em uma nuvem gasosa, por algum tempo foi necessário voar em círculos. Nosso atraso foi adquirindo proporções preocupantes até que finalmente pousamos em Titan.
Quase todos a bordo desembarcaram, minutos depois regressaram nos corpos de outros, que foram se espalhando ao redor e já começaram a mexer nos botões, papéis e portinhas.

Decolamos mais uma vez, agora rumo a Mercúrio. Falta menos de uma hora para chegar lá, menos de duas para encontrar as estrelas e menos de quatro para o final de semana.

Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Coisas que acontecem quando não tem ninguém olhando – X

No canto do quarto há um espelho coberto com qualquer coisa que o possa cobrir.
É um desses espelhos ovais, grandes e antigos que ficam presos a uma base de madeira, e giram refletindo o que há na frente, o que há atrás e o teto e o chão.
Mede quase a minha própria altura, e por algum truque de fabricação inclina-se levemente para trás, mostrando os reflexos a partir de um ponto ligeiramente abaixo da linha de visão.
Devido a esta inclinação, é praticamente impossível mantê-lo coberto. Qualquer peso aumenta o ângulo e o faz girar, trazendo ao topo a parte que antes estava por baixo.

O espelho anda descoberto de qualquer coisa que o pudesse cobrir e reflete a face de outra pessoa. Um estranho em meu quarto? Meu reflexo não se parece muito comigo hoje. Uma mentira, se me sinto o mesmo. O estranho não desiste de olhar para dentro de mim, invade meu olhar com olhos frios e duros.

Giro o espelho, lá dentro o Outro está de cabeça para baixo e tem sobre si o peso dos armários, quadros, poltrona, das imagens das coisas que estão no outro canto. Torno à posição original, ao outro lado, a este lado, faço-o rodar em velocidade. Cessa o movimento, vejo a lisa face de vidro ainda mais profunda e cheia de imagens misturadas.

É perceptivelmente apenas um vidro, e lá dentro estão todas as coisas daqui. O Outro vive lá dentro. Pode bem ser mesmo outro lugar.

Movimento as mãos em frente a Ele, como ter certeza de que fui eu quem comandou o movimento, tão simultâneo? Por que não poderia ter sido simultaneamente pensado? Imagino que minha vontade não é interna, mas se origina em algum ponto no espaço entre nós dois. Ao longo dos anos certamente já trocamos inúmeras vezes de lado, apenas não o percebemos porque os dois mundos são simétricos. Não há como saber qual dos mundos é o meu, qual é o Dele.

Apago a luz e agora o espelho está coberto de escuridão. O reflexo lá dentro está escondido e nossos mundos se fundem através do vidro: o infinito logo ali.
É hora de passar para o outro lado.

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Um Homem Guardado

Sentiu que não conseguiria abrir os olhos naquela manhã.

Aquilo vinha se repetindo com uma freqüência cada vez maior e cada vez mais aflitiva, ele acordava mas não conseguia abrir os olhos nem se mexer por alguns instantes. O único sentido em alerta era o olfato, e sentia o cheiro de café quente.
Primeiro foram segundos, e achou que tinha sido apenas uma impressão. Depois, a cada vez, alguns segundos mais, alguns minutos mais. Agora sabia estar acordado há muito tempo, uma hora talvez. Ao seu redor, a casa vivia: ouvia murmúrios, mas não identificava o que diziam. Sentiu que mexiam nele, em seus braços, em seus olhos, mas nada via. Cheiros variados, de limpeza, de álcool, de medicamentos.

O tempo já não tinha proporção, em ebulição interna porém inerte confundia as horas com minutos e já nem sabia em que pensar. Tinha sido levantado, carregado, remexido. Espetaram coisas, amarraram partes, muitas vozes diferentes, sons. Então o silêncio. O único cheiro era o do perfume de crisântemos e rosas.