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fantasmas

Vejo os fantasmas das pessoas vivas, porém mais novas, de quando eram de minhas relações, tal qual interferências das imagens de um televisor. São transparentes, etéreos, levemente colorizados, e fazem sempre os mesmos gestos, as mesmas cenas. Vejo as pessoas das imagens e não consigo acreditar que são as mesmas de minhas memórias, que o tempo tanto mudou. Os fantasmas, a seu lado, evidenciam suas misérias e as minhas. Parecem reclamar de decisões não tomadas, assombram arrependimentos e lembranças. Imagino as pessoas futuras, deitadas rígidas e com a pele amarelecida como cera, exangues. Assombram o tempo, os intervalos. Ontem estive à cabeceira de um morto em um cemitério triste, um hotel de mortos. Não o conheci em vida, nunca existiu para mim, nem vai gerar interferências. Meu écrã anda movimentado demais.

Vejo couros cabeludos ou não

Para onde foram os cabelos de tantos carecas? Cabelos crescem mesmo após a morte, mas precisam estar grudados ao corpo. Ou será que continuam crescendo mesmo sem ele? Talvez os fios costumem fugir à noite para poderem se alongar e misturar, para virarem coisas diferentes ou mesmo para coisificarem idéias. Talvez os fios roubem idéias, talvez eles contenham as idéias. O Café Villarino estava cheio de pessoas carecas hoje. Estranhamente, todos os clientes e garçons traziam o topo de suas cabeças desmatado e brilhante, exceto eu mesmo. Almocei sentado a uma mesa do canto, escondido, discretamente sentindo alguma condenação nos olhares. Como se houvesse alguma culpa nisso. Os cabelos devem ter sido requisitados pela cozinha, raspados um pouco antes de eu chegar. Pude ler isto, e uma intenção maléfica no olhar do garçom que se aproximava. O que havia atrás da bandeja, que ele tão estranhamente trazia colada ao peito? Imaginei um spaguetti de grossos cabelos à carbonara, cabelos boiando em t...

Profissões: telemktg

Posicionei a cadeira de frente para a quina da mesa. Enquanto trabalho no computador de monitor pequeno e escuro, meu estômago é pressionado contra a ponta de madeira. Os pés estão dobrados para trás, forçando os joelhos, pois tanto a mesa como a cadeira são baixas demais para mim. A luz ambiente é excessivamente branca, refletindo-se nas paredes e papéis, e é gerada por poderosos refletores que aquecem o ambiente. Não há refrigeração, nem água para beber, as janelas estão fechadas. O suor escorre em minhas costas, braços, cabeça, molhando as calças e o chão. O som ensurdecedor de diversas britadeiras combinadas penetra os vidros sujos, bem como as vozes de mais de cem pessoas espremidas no cubículo de trabalho. Uso um fone pesado, desequilibrado e malcheiroso e faço ligações de telemarketing. Somos muitos e estamos aqui presos, é domingo a tarde e só poderemos sair quando cem pessoas disserem sim.

Coisas que acontecem quando não tem ninguem olhando – XIV

Esperava ansioso pelo carteiro. Dia após dia, uma longa espera. (quem na cidade espera por um carteiro?) Aguardava a chegada de um pacote grande, entrega especial, uma caixa de papelão com barbante, nomes rabiscados, carimbos. A encomenda: uma bicicleta com inúmeras marchas, com a qual finalmente realizaria o sonho de sua vida, que era viajar pedalando. Planejava já percorrer duzentos quilômetros no mês seguinte. A caixa enfim foi entregue, mas não era de papelão, e sim de madeira. Parecia ter séculos de idade, ao redor alguns textos impressos em alemão. Estranho, a bicicleta era coreana. Conferiu o número da remessa com a nota fiscal, o código de produto estava correto. Removeu alguns pregos e abriu a tampa lateral: tubos metálicos, pinos, corrente, gancho. Telefonou para o serviço de atendimento ao consumidor, após algumas horas conseguiu agendar a visita de um técnico (para substituir? Consertar?). Resolveu ver o que era aquilo. Era uma estranha máquina. Tinha quatro pés com um po...

bob

Meus pais disseram: pegue esta cabeça de robô e vá à luta! Assim o fiz: lá fora fui amassando ovos e sapos sem falar com estranhos. Não conheci ninguém, não tenho nada que me prenda ao mundo, família, casa, nada. Ando pelas ruas com o capacete verde, pelo grande "T" recortado eu vejo o mundo, ouço pelos fones os sons metalizados. Se algo me incomoda, desintegro - por dentro ou por fora, tanto faz, depende do dia e do ânimo. Desintegrei meus pais, a nossa casa, os vizinhos, a rua, o síndico, os amigos da escola, uns porteiros e uns advogados. Depois reapareceram e sumiram e tornaram a voltar e a ir, sempre acontece quando as dimensões se cruzam. Faz muito calor na cabeça mas o capacete eu não posso tirar, senão cortam-se os circuitos e não sei o que poderia acontecer depois de tantos anos. Tenho medo de modelos novos, mas a ferrugem chegou e é questão de sobrevivência.

Livro Contos Noturnos

37 textos acabam de ser removidos aqui do blog, eles serão publicados em livro pela editora Escrita Fina no primeiro semestre de 2010. Não adianta por enquanto procurar outros livros ou o site da editora, é uma editora nova que vai ser lançada em março. Escrita fina é um selo de literatura jovem de um grupo editorial que é também responsável pelo selo Tinta Negra e pela editora Ao Livro Técnico.

nuvens de chiclete

Fumo alguns centímetros de fumo chocolate com menta no cachimbo curto marrom claro enquanto o fumo faz pensar em balas e taças de vinho do porto e em sorrisos que podem ser tão enigmáticos aqui quanto nas reproduções da Mona Lisa. O que é Mona? Talvez tenha a ver com a unidade, talvez com única (estéreo x mono). Mas sorrisos reproduzidos da Mona a vulgarizam, popularizam, desgastam sua imagem como a das inspetoras de escola ou trocadoras de ônibus. Por que está Lisa? Ou é Lisa, como a Minelli ou uma dessas cantoras? Nome pop com certeza. Podia ter sido Cindy ou Madonna, que aliás até remete também a obra de arte italiana. Mas uns sorrisos como o dela é que são raros e talvez misteriosos. Aromas imaginados de menta circulam pela fumaça lembrando coisas assim.