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Triglicerídeos, para onde vocês vão?

Sinto o poder dos triglicerídeos, que comandam insanidades variadas em meu sangue e permitem que as pernas dancem assim mesmo depois de décadas congeladas. A uma taxa de 450 nem sei do que sou capaz, andando por aí como uma caldeira à moda antiga. Mas cuido bem deles, sempre que consigo ofereço-lhes uma feijoada ou salames gordurosos e sensacionais. Imagino o que poderia acontecer se fosse obrigado a perdê-los, e como nas perdas de amor já sinto o coração apertado e deficiente. Ficaria mau, egoísta, fraco, magro, nervoso, doente. Ou não saberia mais pensar, viraria destro, manco, torceria por outro time, gostaria de uísque, de caldo verde e brócolis, ficaria careca, impotente, mudo, cego, talvez. E se meu sangue for substituído, transformado, circular no sentido inverso, aflorar, esguichar e se esvair, e eu ali ficar, lívido, amarelado e frio caído sobre um leito de folhas? Melhor seria jamais ter provado tais venenos que sabê-los seus por toda uma vida e agora ser obrigado a deixá-los...

Histórias Encaixadas - Parte 2: Favela

Era tarde da noite. Cleonice amassava algumas ervas, misturava alguns pós. Velas acesas por toda parte, cheiro de fuligem, um aspecto bastante sinistro no barraco de madeira. Revirava os olhos, como que em transe, e balbuciava sons incompreensíveis. Assustados, todos ao redor tinham muito respeito por seus poderes. Estavam ali presentes os chefões do tráfico e os policiais do posto de vigilância. Deviam mesmo a ela e seus feitiços a conquista de algumas bocas à facção rival, sem nenhuma baixa entre os aliados. Os rivais, porém, ou foram cortados à bala ou queimados na “churrasqueira”, que era uma área de execução no alto do morro. Colocavam o bandido preso em uma pilha de pneus e ateavam fogo. Dona Cleo, como era chamada, deu um grito terrível e entregou a um dos PMs presente uma fita métrica: a esposa estava grávida e passava mal, corria o risco de perder a criança, o soldado buscava ajuda. - Pega essa fita, mede a perna dela e vê quanto pesa. Se der mais de dez quilos ela está com fe...

Histórias Encaixadas - Parte1: Natal

Em pé, praticamente em todas as esquinas, nas lojas e mercados, Papais Noéis variados: altos, baixos, anões, magros, gordos. Roupas novas, gastas, vermelhas em diversas tonalidades, barbas volumosas, ralas, compridas, aparadas, imperiais ou modernas, gorros curtos ou compridos. Nenhum, porém, igual ao que circulava nos meus sonhos. Eu vinha sonhando com um mesmo Papai Noel há várias noites, um sonho repetitivo e obssessivo com o mesmo sujeito, nas mais estranhas situações ele sempre acabava aparecendo. Aquele era perfeito, como os desenhados por Norman Rockwell, padrão Coca-cola, e me perseguia pelo cenário que fosse. Isso era o que havia de estranho e assustador. O Papai Noel dos sonhos é aquele que mora na Lapônia, mas não hesitava em aparecer no banco do carona, num jogo de sinuca ou numa piscina imaginária. Pode parecer estranho, mas fiquei com medo dos velhinhos de vermelho, e sair de casa nesta época do ano tornou-se algo bastante aflitivo. Não pude evitar completamente as lojas,...

Pessoas e Árvores

Uma ou outra árvore são altas, enquanto algumas são baixas. Se umas e outras pessoas estão altas, enquanto algumas ficam chatas, outras são divertidas, mesmo sendo altas ou baixas. Nas árvores os galhos crescem, nas pessoas o nariz e as orelhas também não páram de crescer. Uns têm folhas, outros cabelos, uns seiva, outros sangue, uns casca, outros pele, uns têm raízes, outros criam raízes. Árvores são firmes, pessoas não. Pessoas andam, árvores não. Para saber a idade de uma árvore é preciso cortá-la, para saber a idade de uma pessoa é só perguntar, Ou vice-versa.

Haircut com bolo

Fui cortar o cabelo, sábado era o único dia que dava tempo, meu cabelereiro agora tinha salão próprio e o corte era com hora marcada. Escolhi logo o primeiro horário, que não tem movimento. A coisa mais detestável é cortar cabelo em pleno movimento de sábado à tarde, com velhotas fazendo as unhas, peruas tingindo o cabelo, pessoas fofocando, correria de lá para cá. Bem cedo costuma não ter quase ninguém, dá até para ir de short, camiseta velha e chinelo, coisas assim. Não fui propriamente esculhambado, nem mal vestido se considerarmos a situação, estava com uma bermuda nova e uma camiseta surrada, sandália. O que piorava a situação era a barba sem fazer há muitos dias e o cabelo enorme, despenteado (quando, nesta situação, faço a barba, o cabelo parece ficar ainda maior, aí acabo deixando a barba acompanhá-lo por alguns dias). Era um aspecto indigente-limpo, para quem não me conhecesse. Bom, posso dizer que a primeira surpresa do dia foi ver que todos estavam vestidos com roupas extrav...

A Alma no Fundo do Olhar

Esta história é verídica, foi extraída da última carta de um suicida, que a deixou junto com um slide endereçados a mim. O morto em questão era meu amigo E.C., um dos melhores fotógrafos de moda do Rio há 10 anos, ainda lembrado com saudade por agências e produtoras. Seus trabalhos estavam nos catálogos das principais grifes e suas fotos guardavam uma vivacidade que superava o real. Sobre seus últimos dias de vida, dizia-se que enlouquecera. E.C. namorava (ou algo parecido) diversas modelos, e seu suicídio é ainda hoje atribuído ao desespero e depressão em que ficara após a morte de uma de suas garotas, alguns dias antes, em um trágico assalto. “Querido amigo, minha vida tem tomado rumos bastante desprezíveis. Tenho a certeza de que você entenderá meu sofrimento, e a crise em que me encontro, arruinado como pessoa e como profissional. Tudo começou com meu último trabalho, que era extremamente dasafiador. O briefing era criar um conceito de fotos para um catálogo de roupas darks, calças...

Coisas que Acontecem quando não tem ninguém olhando - IV

Começou de repente, uma sensação de vertigem enquanto eu olhava ali para a tela do computador. Fechei os olhos por alguns instantes tentando não pensar, mas imagens continuavam surgindo dentro de mim e não havia paz. Depois consegui focar minha atenção em um zumbido que também incomodava, percebi que ele estava ali há bastante tempo, o que era aquilo? Uma idéia se formava, de que talvez eu estivesse mal. Seria estresse? Podia bem ser algo grave, algo congênito, alguma disfunção nunca percebida pelos médicos nem por mim, se alguém nasce doente pode nunca perceber porque não tem o referencial do que é viver em um corpo são. Um louco não sabe que está louco porque não pode se ver pelos olhos dos outros, ninguém sabe que está louco. As laranjas nem imaginam como é ser uma tangerina. Mas as pessoas vivem querendo ser outras, então usam disfarces e máscaras do que imaginam ser o outro, mas o outro mesmo acha tudo isso muito estranho, ele caricaturado não é ele de verdade, não tem essência ne...