Postagens

Coisas que acontecem quando não tem ninguém olhando – VIII

Carla anda devagar para a direita vinte metros e acaba indo um pouco mais para a esquerda, pois o mundo gira mais rápido. Uma sensação de dar um passo a frente e perceber que recuou dois, como quando tentamos subir em uma escada rolante que desce. Se vai para a esquerda por uma hora, chega na mesma hora em que saiu, dependendo da velocidade, ou mesmo antes. Mas para ela uma hora passou, então é como se tivesse envelhecido uma hora a mais que o mundo, ou viajado um pouquinho para o passado. No entanto, se corre para a direita por uma hora leva duas para chegar, viaja para o futuro. Sai ao meio dia, viaja por três horas e chega às cinco da tarde, ainda que para ela não passem de três. Às suas costas um vento congelante, em seu rosto ares quentes equatoriais, se vai em diagonal muda também o clima. Carla está em um avião, e voa de um lado para o outro pulando fusos horários. A idéia é voar até acabar o combustível e então usar seu paraquedas, o jatinho não é dela mesmo, nem o piloto ali n...

Coisas que acontecem quando não tem ninguém olhando - VII

Uma pizza de carne seca. Sem que ninguém reparasse, abri a cápsula e pulverizei o conteúdo, um fino pó branco, sobre a fatia. Nada de mais, não era cocaína, apenas um remédio para reduzir a gordura do sangue. É preciso tomar durante as refeições para reduzir os tais triglicerídeos, então se tomo mais um posso ao mesmo tempo comer algo mais, como um antídoto. Antídoto para a pizza. Diz na bula: pode causar intoxicação da pele, desmaio, náuseas, urticária, queda de cabelos, etc. Então que houvesse alguma compensação. Na mesa ao lado, uma família normalzinha, pai, mãe, dois filhos. O sujeito deve ser militar, tem cabelo mal cortado, curto e cheio de arestas, fala alto e tem uma expressão de superioridade muito irritante. A esposa fala de boca cheia enquanto tenta convencer o filho a não mastigar de boca aberta e a filha a desligar o MP3 por alguns minutos. Havia um nativo (a pizzaria ficava em uma cidadezinha do litoral carioca) que tocava violão e cantava músicas dos anos 80 sentado num ...

Histórias Encaixadas - Parte3 – Barbarossa

Maristela tomou outro gole da poção mágica que fazia crescer cabelos em bola de bilhar: ela queria tanto ter barbas que já experimentara de tudo um pouco, agora estava apelando para magia. Era linda, jovem, ruiva, bem feminina, mas queria muito ter uma barba espessa e comprida, como a do imperador Pedro II, imponente.Já tomara hormônios, e nomáximo conseguira um bigodinho ralo e uma menstruação bagunçada. Já usara tônicos e produtos químicos, que só trouxeram espinhas, coceira e medo de um câncer. A poção que bebia encontrara pela internet, precisara ir buscar em um barraco sombrio de favela, onde fora recebida por uma feiticeira descabelada e parecida com o Grande Otelo. Olhos amarelados e grandes, uma expressão lunática, ela não parara de rir entregara um frasquinho azul, onde lia-se "ruivo", e recebera o dinheiro. E só. Maristela fora embora rapidamente. Dizia o anúncio: "beba toda a poção e vá dormir. No dia seguinte a barba estará visível e crescerá em ritmo acelera...

Triglicerídeos, para onde vocês vão?

Sinto o poder dos triglicerídeos, que comandam insanidades variadas em meu sangue e permitem que as pernas dancem assim mesmo depois de décadas congeladas. A uma taxa de 450 nem sei do que sou capaz, andando por aí como uma caldeira à moda antiga. Mas cuido bem deles, sempre que consigo ofereço-lhes uma feijoada ou salames gordurosos e sensacionais. Imagino o que poderia acontecer se fosse obrigado a perdê-los, e como nas perdas de amor já sinto o coração apertado e deficiente. Ficaria mau, egoísta, fraco, magro, nervoso, doente. Ou não saberia mais pensar, viraria destro, manco, torceria por outro time, gostaria de uísque, de caldo verde e brócolis, ficaria careca, impotente, mudo, cego, talvez. E se meu sangue for substituído, transformado, circular no sentido inverso, aflorar, esguichar e se esvair, e eu ali ficar, lívido, amarelado e frio caído sobre um leito de folhas? Melhor seria jamais ter provado tais venenos que sabê-los seus por toda uma vida e agora ser obrigado a deixá-los...

Histórias Encaixadas - Parte 2: Favela

Era tarde da noite. Cleonice amassava algumas ervas, misturava alguns pós. Velas acesas por toda parte, cheiro de fuligem, um aspecto bastante sinistro no barraco de madeira. Revirava os olhos, como que em transe, e balbuciava sons incompreensíveis. Assustados, todos ao redor tinham muito respeito por seus poderes. Estavam ali presentes os chefões do tráfico e os policiais do posto de vigilância. Deviam mesmo a ela e seus feitiços a conquista de algumas bocas à facção rival, sem nenhuma baixa entre os aliados. Os rivais, porém, ou foram cortados à bala ou queimados na “churrasqueira”, que era uma área de execução no alto do morro. Colocavam o bandido preso em uma pilha de pneus e ateavam fogo. Dona Cleo, como era chamada, deu um grito terrível e entregou a um dos PMs presente uma fita métrica: a esposa estava grávida e passava mal, corria o risco de perder a criança, o soldado buscava ajuda. - Pega essa fita, mede a perna dela e vê quanto pesa. Se der mais de dez quilos ela está com fe...

Histórias Encaixadas - Parte1: Natal

Em pé, praticamente em todas as esquinas, nas lojas e mercados, Papais Noéis variados: altos, baixos, anões, magros, gordos. Roupas novas, gastas, vermelhas em diversas tonalidades, barbas volumosas, ralas, compridas, aparadas, imperiais ou modernas, gorros curtos ou compridos. Nenhum, porém, igual ao que circulava nos meus sonhos. Eu vinha sonhando com um mesmo Papai Noel há várias noites, um sonho repetitivo e obssessivo com o mesmo sujeito, nas mais estranhas situações ele sempre acabava aparecendo. Aquele era perfeito, como os desenhados por Norman Rockwell, padrão Coca-cola, e me perseguia pelo cenário que fosse. Isso era o que havia de estranho e assustador. O Papai Noel dos sonhos é aquele que mora na Lapônia, mas não hesitava em aparecer no banco do carona, num jogo de sinuca ou numa piscina imaginária. Pode parecer estranho, mas fiquei com medo dos velhinhos de vermelho, e sair de casa nesta época do ano tornou-se algo bastante aflitivo. Não pude evitar completamente as lojas,...

Pessoas e Árvores

Uma ou outra árvore são altas, enquanto algumas são baixas. Se umas e outras pessoas estão altas, enquanto algumas ficam chatas, outras são divertidas, mesmo sendo altas ou baixas. Nas árvores os galhos crescem, nas pessoas o nariz e as orelhas também não páram de crescer. Uns têm folhas, outros cabelos, uns seiva, outros sangue, uns casca, outros pele, uns têm raízes, outros criam raízes. Árvores são firmes, pessoas não. Pessoas andam, árvores não. Para saber a idade de uma árvore é preciso cortá-la, para saber a idade de uma pessoa é só perguntar, Ou vice-versa.