Postagens

Package

Aterro do Flamengo. Quarta-feira. Trânsito incrivelmente fluido, íamos todos a quase 100, carros mudando de faixa e se misturando sem se encostar, quase um balé visto de dentro o carro vedado, apenas o ruído da ventilação e um cd do Pixies tocando baixinho. De repente, um cobertor embolado no meio da pista, compacto, alongado, quase um embrulho. Desviei bruscamente, um estranho pressentimento, uma impressão de que havia algo enrolado ali. A sensação esteve latente durante todo o dia, desagradável. 16:30. Sexta-feira Mesmo caminho, mesmo silêncio, agora Echo tocando Killing Moon, balé de carros a toda velocidade. Como todos os dias. Num instante o pressentimento voltou, sutil como uma lembrança de infância, e eis que um homem resolveu cruzar a pista em pleno trânsito. Ruído de freios, buzinas, ele deixou cair algo na pista antes de completar a corrida. Olhava preocupado para um cobertor embolado no meio da pista, apenas pude vê-lo de relance mas poderia jurar que era idêntico ao anterio...

Amanhecer

Sentira-se meio descarrilhada hoje, estranha desde que acordara e vira os chapéus planando sobre a grama do jardim da frente. Devia ter fechado as cortinas no dia anterior para que não precisasse vê-los, mas os barulhos da noite a assustavam sobremaneira, assim gostava de poder contar com a luz do poste se infiltrado pelos vidros. Amanhecera um dia ensolarado, uma luz que suspendia poeirinhas pelo ar. Os primeiros sons foram de um canário, de um vendedor ambulante de loterias e de um caminhão barulhento. Então três sombras passaram e tornaram a passar, contornos distintos de chapéus antigos. Foi até a janela, lá estavam eles, executando um vôo-dança. Clara estava vestindo apenas uma camisolinha de seda e apesar disso sentia um calor insuportável no quarto. Por onde andava, o calor a seguia como que irradiado por seu próprio corpo. Estranho, se estivesse febil sentiria frio. A geladeira estava aberta, quase vazia. Sobre a mesa uma grande bagunça, cascas de ovos, farinha por toda parte, ...

Gostosuras ou Travessuras?

Andava apressado para buscar o carro no estacionamento do MAM, já era fim de tarde e eu estava um pouco atrasado. Quando descia a larga rampa da passarela sobre o Aterro, cruzei com a Xuxa Fake. Já a tinha avistado em duas ocasiões: uma ali no centro mesmo e outra na Barra, dançando no sinal de trânsito entre os carros e depois pedindo trocados aos motoristas. Agora subia apressada, no rosto um sorriso triangular que dizia “Sou louco sim, se quiser tirar uma foto custa baratinho” ou “Qual é o problema? Também preciso sobreviver”. Xuxa fake é um homem por dentro de um tipo de roupa que a apresentadora de verdade usava há uns vinte anos atrás, imagino se desde esta época o sujeito se traveste. Há um homem em Copacabana que só veste pijamas, sai a qualquer hora só com a roupa de dormir, trabalha vestido assim, anda de metrô vestido assim. Imagino que deve dormir nu. Depois (parece mentira, em Copacabana mesmo) cruzei com um fusca colorido dirigido por um palhaço. Presos no trânsito éramos...

E se fosse logo ali?

E se ninguém gostasse do amarelo? Precisaríamos repintar coisas demais. E se ninguém gostasse do c, do p, do x? Precisaríamos inventar outras letras para substituí-las no discurso. Ainda assim, não deixariam de existir. Habitariam o fundo de alguém, raros e preciosos. E se os dedos fossem moles e não conseguissem apertar as teclas, será que as teclas existiriam? E se ao invés de letras tívéssemos apenas sons? E se no país dos cegos as letras sumissem? E se os ciganos cegos pudessem ler as espinhas e rugas ao invés das mãos? E se não houvesse o que pegar, o que apontar, o que escrever, Os dedos precisariam encontrar outras utilidades. E se os olhos fossem quadrados, e não fosse possível rolá-los nas órbitas, Teríamos pescoços musculosos de tanto virar a cabeça. Usaríamos óculos quadrados, com a lente pequena. Por que mesmo os óculos têm os dois lados iguais? Cada lente poderia ser num formato diferente, uma redonda outra retangular, De cada lado, um rosto. Uma pessoa diferente conforme...

Self healing

Olhei para minhas mãos sobrepostas, o polegar direito pressionando com firmeza o indicador esquerdo, estranha dormência na mão toda. Removido o polegar, vi a cabeça do prego, prateada, quase sumindo pela ponta, que era de um amarelado pálido, um tanto estranho e insensível. Comecei a puxar com as unhas do outro indicador e do polegar e aos poucos o corpo prateado deslizava para fora. Limpo e brilhante, 8 centímetros de comprimento, a ponta ligeiramente torta. O dedo era menor que o prego, mas não houve sangue algum. Houve sim uma extirpação de algum fantasma, algum tormento que nem sei qual foi, como um vodu desfeito.

um pouquinho de Depeche Mode

I´m taking a ride with my best friend I hope you´ll never let me down again

Imóvel realmente imóvel

O apartamento estava em escombros. Eu nunca havia estado em um lugar assim antes e agora percorria os aposentos sobre tábuas rangentes e descoradas do piso, cercado por paredes mofadas e descascadas. Junto aos cantos, emaranhados de fios saíam dos rodapés embolados e confusos, tudo bem velho. A cozinha sombria não me convidou a entrar. Vi apenas a geladeira meio branca meio enferrujada e ladrilhos azuis rachados, poeira, muita poeira. E teias de aranha por todas as partes, e alguns potes de vidro com comidas podres, verdes, esbranquiçadas. Móveis velhos, amontoados nos cantos, roupas ensacadas sobre eles, sacolas de supermercados que já nem existem mais. Um sofá, não, dois, de um couro desbotado e puído, pés de mesa sem a mesa. Suspeito de ratos, de baratas, traças, lagartos, escorpiões, aranhas, morcegos. Um quarto abandonado, coisas caídas nas prateleiras, papéis rasgados pelo chão, parecia ter sido revistado por uma patrulha da gestapo. Cheiro ruim, ar pesado, olhos ardendo. Um banh...